Jornalismo ou obrigação? Mãos em Jogo analisa a cobertura do Globo Esporte no Pan de Lima
- maos-em-jogo

- 1 de nov. de 2019
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Com o objetivo de observar o espaço que o handebol tem na mídia brasileira, o blog Mãos em Jogo analisou a cobertura do site Globo Esporte.com sobre a modalidade durante o Pan-Americano de Lima.

O site, pela sua notoriedade no âmbito esportivo, foi o objeto escolhido para ilustrar o espaço do esporte a partir de três critérios: quantidade, fonte e tema. Sendo assim, foi necessário definir um recorte para a análise acontecer: o período do Pan-Americano de Lima - 26 de julho à 11 de agosto de 2019 - e duas semanas seguintes, indo até 23 de agosto.
A análise das matérias aconteceu, mais especificamente, a partir do dia 24/07. Apesar do dia 26/07 ser a data oficial do evento, o handebol foi a modalidade a dar início aos jogos, com a data marcada para o dia 24/07.
QUANTIDADE - Ao todo, foram 24 matérias sobre a seleção brasileira (feminina e masculina) durante o Pan. Depois da competição e até a contagem das duas semanas seguintes, das cinco matérias somente uma é com foco nacional, e voltada para o Beach Handebol, a modalidade do handebol em praias.
As outras quatro foram matérias com foco em competições escolares, de Rondônia e Santos, que contaram com o handebol na lista dos esportes. Isso fez com que as afiliadas do Grupo Globo cobrissem as competições e enviassem os materiais ao Globo Esporte nacional, republicando-as.
Do dia 24/07 até 01/08: 15 matérias; 02/08 até 08/08: 7; 09/08 até 15/08: 1; 16/08 até 23/08: 5 (uma da seleção).

Sendo assim, o maior número de matérias sobre o handebol ficou destinado à pré-competição e ao seu início. A partir da segunda semana, este número cai mais da metade. Na terceira semana, comparado à primeira, este número inicial cai aproximadamente 94%. Já em relação às duas semanas seguintes ao Pan-Americano de Lima, o número volta à sua crescente graças a representatividade escolar do handebol.
FONTE - Das 24 matérias no período do Pan, 100% delas contaram com fontes oficiais: jogadores das equipes feminina e masculina e técnico da seleção masculina da seleção brasileira, além das jogadoras e do técnico da seleção feminina da Argentina. Já sobre as duas semanas seguintes, das cinco matérias, apenas duas contaram com fontes oficiais. Isso porque as outras três não tiveram o uso de fontes, foram publicações apenas para apresentar a competição escolar e consequentemente a programação.
De qualquer maneira, as fontes utilizadas nas duas matérias foram: Thiago Gusmão, presidente do Novo Beach Handebol Brasil (NBHB) e o coordenador da Copa Velho Chico de Handebol, Marcos Campos. Sendo assim, aqui também é possível constatar que 100% das fontes utilizadas nas matérias são oficiais. A diferença é que no Pan-Americano, o destaque fica para os jogadores e a comissão técnica. Nas matérias do pós, a atenção é voltada especificamente para a organização dos eventos, não havendo a procura por jogadores, estudantes e seus técnicos.
TEMA - A observação a partir dos temas das matérias pode ser dividida em quatro partes: a expectativa da Seleção brasileira, tanto feminina quanto masculina; a vitória da equipe feminina; a derrota da masculina e a cobertura estudantil do pós. As equipes brasileiras chegaram em Lima sendo as favoritas no handebol. Foram as campeãs no último Pan-Americano, em Toronto, e sempre conquistaram ao menos uma medalha na competição.
As primeiras matérias conseguiram demonstrar isso muito bem: abordavam a maneira como os times haviam se preparado, entrevistavam os jogadores para saber das suas expectativas e contavam com muita animação ao demonstrar números de edições anteriores.
O handebol, como falado anteriormente, foi a modalidade a dar início ao evento. Com o passar dos dias, a seleção feminina foi garantindo as suas vitórias e alcançando cada vez mais pontos até a medalha de ouro. Enquanto isso, a seleção masculina ia se preparando, pois seus jogos começariam em seguida.
Chegara o grande dia: equipe feminina hexacampeã. Postagens sobre a vitória e como as jogadoras estavam lidando com o momento faziam parte do site Globo Esporte.com. As matérias, neste momento, se dividiam na conquista das mulheres e nos jogos iniciais dos homens.
Eles estavam jogando pelo tetracampeonato, que ficou para trás após a derrota para o time do Chile. A partir daí, o foco das matérias mudou drasticamente. Temas sobre a administração da Confederação Brasileira de Handebol (CBHb), em como poderiam ter feito diferente, que mesmo com a melhor atuação no campeonato mundial passado, perderam a oportunidade de garantir mais uma medalha de ouro etc. estavam sendo postados.
Saíram do campeonato com uma medalha, mas a de bronze. Logo no dia seguinte da derrota, os meninos jogaram pelo terceiro lugar contra o México, no qual garantiram a sua última vitória na competição. Não só a medalha estava em jogo, mas também a classificação direta para as próximas Olimpíadas, em Tóquio. As meninas, se garantiram.
O jogador Thiagus Petrus, capitão do time, deu uma entrevista exclusiva ao jornalista Thierry Gozzer, do Globo Esporte.com. A conversa contou com temas mais sérios, bem diferente das matérias iniciais. Fechando as matérias do Pan aqui analisadas, a penúltima é sobre a demissão do técnico da equipe masculina, o Washington Nunes. Ou seja, um declínio.
Nas duas semanas seguintes, apenas uma matéria contou com a temática nacional, pois foi direcionada a primeira etapa do Circuito Brasileiro de Handebol de Areia, que aconteceu em João Pessoa. As outras quatro matérias são todas sobre campeonatos estudantis, fato comprovado: o handebol é destaque nas aulas de educação física nas escolas brasileiras.
Ao comparar as matérias do Pan-Americano com as matérias do pós, sobre os campeonatos estudantis, é possível perceber características bem diferentes. As do Pan contavam com a expectativa do campeonato e dos jogos em si, com entrevistas, resumo do jogo e com potenciais resultados. Já as do pós, havia apenas a apresentação do evento e sua respectiva programação.

Ao nos direcionarmos para o fechamento da análise, se faz possível notar que o handebol não recebe a sua devida atenção pelo jornalismo brasileiro. A atenção recebida é a partir de eventos de grande porte.
Isso se repete em questão de dois em dois anos, visto que há duas competições com apreço popular: os Pan-Americanos e as Olimpíadas. Com a análise fundamentada no Globo Esporte.com, o handebol esteve em suas postagens no pré e durante o evento de Lima. Ou seja, prepararam o público para os jogos e os acompanharam com o decorrer dos dias.
Tínhamos, na primeira semana do Pan, cerca de 15 matérias sobre o esporte. Número muito expressivo. Porém, esse número cai para 1 logo duas semanas seguintes. Ou seja, as pautas se finalizaram junto com os jogos, não havendo participação de comentários e nem uma cobertura do pós evento. Por exemplo, de como os jogadores voltaram para a sua rotina ou mesmo uma cobertura sobre competições futuras das equipes.
Fica claro que o objetivo das 24 matérias seguiu um caminho de serviço esportivo. Todos os esportes mereciam uma atenção. Contudo, em poucos dias o assunto caiu em esquecimento, mais uma vez. As cinco matérias seguintes acompanharam a lógica que é percebida nas escolas: o handebol está presente, geralmente, na fase da adolescência. Quem nunca o praticou? E é assim que as postagens tiveram seu seguimento. Não receberam a mesma atenção, mas ali estavam.
Além disso, a temática derrota se fez mais presente que o ouro feminino. Com a diferença de uma matéria, o Globo Esporte.com direcionou mais atenção ao bronze masculino. Outro ponto importante foi o direcionamento das fontes: apenas vozes oficiais foram ouvidas. Nem torcida, nem família.
A cobertura do Globo Esporte.com se fez presente durante a competição. O ponto de alerta é que o handebol carece de uma atenção contínua: os jogadores e os times não param quando as competições se encerram. O que fica para as próximas análises é até aonde a mídia pode chegar para o handebol e quando a cena de estrelismo se transformará em noticiabilidade. Isto é, quando os veículos de comunicação se direcionarão ao handebol com uma cobertura jornalística de acompanhamento e não como uma obrigação.




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